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A Cidade dos Sonhos:

O Onírico Cabe em uma Caixa Azul  

por Rodrigo Ponts

  

Lembrando seu primeiro filme, Eraserhead (1977), David Lynch, com este Mullholand Drive/A Cidade dos Sonhos (2001), nos traz um filme imperdível.

     Numa Hollywood um tanto estranha e sombria, diferente da que estamos acostumados a ver, toda brilhante e mergulhada em glamour, a história de duas mulheres serve de pretexto para descortinar uma bela alegoria do cinema, evidenciando a linguagem como pura manipulação.

     Embora à primeira vista o filme possa parecer difícil, ele se explica totalmente. Desde seu início, ele nos alerta de que sua lógica será a lógica de um sonho, sendo que qualquer tentativa de entendê-lo de outra forma será vã. Isso fica claro no mergulho que uma câmera subjetiva dá em um travesseiro, logo na primeira cena (após a abertura-prólogo, diria prólogo-protéico, com o perdão do plágio).

Esse “prólogo-protéico” nos mostra um casal dançando, tendo sua imagem várias vezes multiplicada na tela, mergulhando uma na outra, misturando-se, confundindo-se, perdendo sua individualidade. Fundida a essas imagens, tem-se quem no primeiro bloco formante se chama Betty abraçada com um casal de velhinhos (neste primeiro bloco, simpáticos). A seqüência sugere a perda da identidade que ocorrerá com os principais personagens. Assim como o casal dançando se mistura com cópias de si mesmo, as protagonistas terão suas identidades misturadas, trocadas, as relações entre os personagens se fundirão e se confundirão.

A interpretação a seguir tenta entender a lógica onírica com as dicas do filme para organizar o que, a princípio, parece sem sentido.

É numa seqüência inicial, a do bar, na qual um sujeito um tanto perturbado diz que teve o mesmo sonho duas vezes, que se anuncia a estrutura do filme  em duas partes, dois grandes blocos formantes para os quais a seqüência no clube Silencio servirá de divisora, instaurando de vez o onírico na câmera escura – a misteriosa caixinha azul - metáfora do cinema.

Esse mesmo relato do sonho é a pista fundamental, a nossa chave azul para desvendar o sentido de tudo o que nos aguarda. O sonho, que aparentemente nada tem a ver com o resto do filme, é a principal pista que teremos, uma quase-explicação quanto ao que tudo significa. Seu relator diz que alguém atrás do bar é a causa de tudo (who’s doing it), sendo esse homem (meio mendigo, meio monstro) o causador  da terrível sensação (awful feeling) que o rapaz sente. Aceitando-se a interpretação de que o filme é uma alegoria do cinema, o sujeito atordoado representa os espectadores q. se sentirão perdidos na segunda parte do mesmo. Quem estará por trás da sensação ruim de atordoamento, o homem atrás do prédio, será o diretor, atrás das câmeras, manipulando a linguagem e a audiência.

Mas a seqüência de fundamental importância para corroborar a tese da alegoria e para que se compreenda a lógica onírica do filme é a do clube Silêncio. É nessa seqüência que as protagonistas – e nós – recebemos a chave para compreender o que todo o resto do filme fará com nossas sensibilidades.

Além de ser de uma beleza rara, a seqüência é uma justificativa do diretor: o anfitrião do clube Silêncio nos diz com todas as letras que tudo o que estamos vendo é mera manipulação, tudo é uma gravação – não há banda. Não adianta querermos nos identificar, é fútil qualquer emoção pela qual nos deixemos levar. Mesmo assim, igual às nossas protagonistas (citando o Godard de Viver a Vida), ignoramos o aviso: da mesma forma que elas se emocionam com a canção Llorando (inesquecível versão a capella e em espanhol de Crying, na mais-que-perfeita interpretação de Rebekah Del Rio), nós queremos encontrar o fio da meada, o fim do labirinto em que David Lynch nos joga...

Mas a linguagem que Lynch manipula não passa disso: uma linguagem-manipulada. Através da montagem, seguindo uma lógica de sonho (na qual os personagens trocam de papel, os lugares perdem sua geografia, a continuidade se esvai em sua nova realidade onírica), o diretor se diverte ao nos botar perdidos, tentado entender o que não é para ser entendido, mas sentido. Sua mensagem é simples: o cinema é manipulação e eu (David Lynch) quero manipular minha audiência mostrando que a posso enganar usando o que ela pensa que sabe - que o cinema é realista – e meu cinema não precisa ser realista; ele pode ser um sonho, ou um pesadelo.

É exatamente por isso que temos o monstro-diretor encarando a câmera ao final do filme, sardônicamente dizendo-nos com o olhar: fui eu, sim, quem fez isso com vocês, eu sou o responsável por essa sensação de atordoamento, eu estou atrás das câmeras.

O que menos importa nessa história toda é a trama. Para que ficar preocupado com a origem da maleta com dinheiro ou com quem diabos é aquele cowboy depois de uma aula de cinema como a que Lynch nos dá? Resta-nos apreciar o filme e a mestria da manipulação, aproveitar o pesadelo e fazer dele o sonho possível de um cinema criativo, mesmo em Hollywood.

 

 

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